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Uso de canetas emagrecedoras reforça 'economia moral da magreza', diz USP

Professora da USP detalha como a popularização de medicamentos para perda de peso acentua estereótipos e afeta a saúde mental e as conquistas femininas.

03/05/2026 às 14:46
Por: Redação

A crescente adesão aos medicamentos injetáveis para o tratamento da obesidade, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, tem gerado um intenso debate. Embora apresentem resultados significativos e recebam o aval de diversas sociedades médicas, esses remédios têm sido frequentemente utilizados sem supervisão profissional ou por indivíduos que não se enquadram no quadro de obesidade.

 

Para a professora Fernanda Scagluiza, das faculdades de Saúde Pública e de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), a atratividade dessas canetas deriva do que ela denomina como a "economia moral da magreza". Scagluiza foi uma das entrevistadas no episódio "O boom das canetas emagrecedoras", exibido pelo programa Caminhos da Reportagem, da TV Brasil, na segunda-feira, dia 27.

 

A "economia moral da magreza" e a gordofobia

 

Questionada sobre o conceito da economia moral da magreza e suas implicações na violência contra pessoas gordas, Fernanda Scagluiza explicou que ela se refere à atribuição de diferentes significados a distintos tipos de corpos. Um corpo magro ou sarado, por exemplo, é percebido como virtuoso, associado ao esforço e ao autocontrole, enquanto um corpo gordo é socialmente estigmatizado.

 

Enquanto que, socialmente, um corpo gordo é visto como o de alguém preguiçoso, relaxado, que não tem força de vontade, não tem disciplina e outros estereótipos também muito perigosos, como falta de competência, falta de higiene, que não têm nada a ver com a realidade das pessoas.


A especialista comparou essa dinâmica a um jogo social onde pessoas com corpos magros ou sarados possuem mais "fichas", usufruindo de melhores relações no trabalho, na educação e em aspectos amorosos, com privilégios. Em contrapartida, pessoas gordas enfrentam o oposto, sofrendo perda de direitos e opressão, evidenciando que o privilégio de um lado implica a negação de direitos do outro.

 

Origem dos padrões de beleza e a pressão pela magreza

 

Sobre a origem desses padrões, a professora da USP observou que eles são antigos e variáveis ao longo da história. O ponto crucial, segundo ela, é que a existência de qualquer padrão sempre impede a diversidade. Scagluiza exemplificou que, ao observar um grupo de pessoas, percebe-se uma vasta diversidade. No entanto, impor um padrão, seja de extrema magreza (que tem retornado), de "magreza saudável" ou de um corpo super musculoso, inevitavelmente exclui grande parte da população.

 

O objetivo de tais padrões, conforme a professora, é justamente criar exclusão para impulsionar uma indústria que oferece "soluções" para alcançar o ideal estético. Indagada se atualmente "nunca se é magro o suficiente", Scagluiza afirmou que sim, reiterando a frase "toda gordura será castigada".

 

Ela esclareceu que pessoas com peso mais elevado e corpos maiores são as mais afetadas por um sistema de violência chamado gordofobia.

 

Esse sistema vai fazer de tudo para que essa pessoa fique de fora da sociedade, para que se enraize dentro dela a humilhação, a opressão e a falta de dignidade.


Embora essas pessoas sejam as mais prejudicadas, a pressão estética pela magreza atinge também quem não é considerado gordo. A intensidade dessa pressão varia conforme o local, gênero e classe social, sendo mulheres geralmente mais impactadas. Contudo, as pesquisas ainda não distinguem suficientemente as diferenças entre mulheres cis, trans e travestis. Atualmente, qualquer pequena quantidade de gordura é vista como um problema a ser resolvido, impulsionando a busca por uma "magreza farmacológica".

 

Impacto nas conquistas femininas e a medicalização do corpo

 

A professora Fernanda Scagluiza avalia que a sociedade estava em um caminho de desvinculação da cultura da magreza extrema a partir dos anos 2010, com o movimento de positividade corporal que promovia a diversidade. No entanto, ela alerta para a necessidade de não ser ingênuo, pois esses avanços, especialmente na moda, foram concedidos a contragosto, com cotas para mulheres com corpos maiores, mas que ainda se encaixavam em formatos específicos, sem "dobras de barriga".

 

A percepção atual da professora é que há um contentamento em reverter essa tendência e retornar ao padrão de magreza extrema. Ela citou uma reportagem que mencionava modelos de passarela, já consideradas "tamanho zero", precisando de ajustes nas roupas porque até mesmo essas peças estavam largas. Esse cenário é considerado perigoso, sobretudo para crianças e adolescentes influenciáveis, embora Scagluiza ressalte que a situação anterior não era "o paraíso".

 

A febre das canetas emagrecedoras, segundo a especialista, tem afetado negativamente as conquistas das mulheres. Ela expressou um sentimento de medo em sua experiência como mulher, mesmo com privilégios, destacando o Brasil como campeão em feminicídio e a constante presença do machismo e do cis-hétero patriarcado. O avanço de movimentos conservadores na política e sociedade, como "redpill" e "tradwife" (esposas tradicionais), é visto como um contexto preocupante.

 

Nesse cenário, a preocupação feminina com o tamanho da barriga ou se a roupa serve é vista como um "sedativo político" que desvia a atenção das lutas necessárias. A busca pela magreza extrema, impulsionada pelas canetas, torna-se conveniente para esse movimento "agressivo, violento e retrógrado", fazendo com que as mulheres foquem em questões estéticas em vez de suas batalhas sociais.

 

Scagluiza também abordou a medicalização do corpo saudável por padrões estéticos, definindo medicalização como a transformação de um aspecto social em algo médico. Ela exemplificou com a alimentação, que sempre foi um fenômeno sociocultural, mas se tornou "remédio", com pessoas falando em "comer proteína" em vez de alimentos. A ascensão das canetas emagrecedoras intensifica essa medicalização.

 

Em um estudo que a gente está submetendo para uma revista, a gente encontrou o seguinte: as mulheres que já tinham usado as canetas, elas usavam o termo "vacina contra fome".


A caneta, nesse contexto, faz com que a fome, um processo evolutivo natural, seja vista como opcional. Os comportamentos observados incluem restrições alimentares extremas, com foco em metas de proteína, ingestão de água e fibras, totalmente medicalizados. Algumas pessoas até utilizam efeitos colaterais como náusea e vômito para evitar a comida, chegando a frases como: "Foi esse o jeito que eu achei de fechar a boca num nível radical para conseguir emagrecer".

 

A professora alerta para os perigos dessa prática para a saúde individual e para a vida em sociedade, questionando o destino dos rituais e do aspecto simbólico da alimentação. Ela enfatiza que a alimentação saudável é um direito humano e está ligada ao modo de pensar, viver, à vitalidade do corpo e à proteção contra doenças, e que muitos desses aspectos podem ser perdidos nesse processo de medicalização.

 

Assista ao programa completo no YouTube da TV Brasil

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