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Cinema latino-americano debate democracia e herança autoritária

Filmes brasileiros e paraguaios concorrem ao Prêmio Platino, destacando a memória política e as tensões democráticas na região.

03/05/2026 às 14:45
Por: Redação

Filmes da América Latina continuam a ser um espaço crucial para o debate sobre democracia, a memória política e o legado de regimes autoritários na região. A recorrência desses temas nas produções cinematográficas reflete as tensões ainda presentes, conforme apontado por especialistas em ditaduras e cinema.

 

A relevância do assunto é sublinhada pela presença de ao menos três obras que abordam essa temática entre os concorrentes ao Prêmio Platino, a principal honraria do cinema ibero-americano. Os vencedores serão anunciados no México, em 9 de maio, em uma cerimônia que destaca a produção cinematográfica da região.

 

Entre as obras que explicitamente discutem regimes autoritários e a democracia, destacam-se produções brasileiras e paraguaias. O longa-metragem brasileiro O Agente Secreto, dirigido pelo pernambucano Kleber Mendonça, concorre ao troféu de melhor filme do ano, e o documentário Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa, também está na disputa. Adicionalmente, o documentário paraguaio Sob as bandeiras, o Sol, de Juanjo Pereira, aborda a memória da ditadura militar em seu país.

 

Reflexões sobre direitos sociais e autocracia

 

As narrativas dos filmes exploram diferentes facetas do autoritarismo e da luta democrática. O Agente Secreto investiga o apoio do setor empresarial aos regimes de exceção, a perseguição política e o esforço para apagar a memória da ditadura no Brasil. Já o documentário de Petra Costa analisa a influência crescente da religião evangélica nos caminhos da política. O filme paraguaio, por sua vez, utiliza imagens raras para reconstruir o período ditatorial no Paraguai.

 

Paulo Renato da Silva, professor de História na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), enfatiza que as privações de direitos básicos, como saúde, alimentação e moradia, geram insatisfações sociais generalizadas. Ele defende que somente em um ambiente democrático essas demandas podem ser devidamente atendidas.

 

“É a democracia que permite você olhar para essas demandas [por direitos] e, como sociedade, buscar atendê-las”, afirmou.

 

O professor explicou que os regimes autoritários, por natureza, tendem a beneficiar grupos políticos e econômicos específicos, ao mesmo tempo em que suprimem a liberdade de expressão e outras manifestações da oposição. Paulo Renato da Silva é um renomado pesquisador da ditadura paraguaia, período que, segundo o documentário de Juanjo Pereira, contou com a colaboração do Brasil em ações como a Operação Condor.

 

A “pauta não resolvida” da democracia

 

Marina Tedesco, professora de cinema na Universidade Federal Fluminense e especialista em cinematografia latino-americana, complementa que a fragilidade democrática na América Latina representa uma “pauta não resolvida”. Ela observa que a defesa de regimes militares e a minimização de suas atrocidades, incluindo violações de direitos e casos de corrupção, ainda são presentes no discurso de presidentes e importantes figuras políticas.

 

Tedesco citou o exemplo do presidente paraguaio Alfredo Stroessner, retratado no filme de Juanjo Pereira, cujo regime corrupto e brutal resultou na prisão e tortura de mais de 20 mil pessoas, mas que foi reverenciado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

 

Historicamente, o cinema tem sido uma plataforma para o debate sobre a democracia, atuando de forma clandestina e, posteriormente, no exílio, por artistas e ativistas perseguidos politicamente.

 

“Pelo fato de a discussão incomodar, ainda vemos governos autoritários na América Latina atacando tanto o cinema ─ uma instância onde esses temas ainda são tratados”, reforçou.

 

Em 2025, o filme Ainda Estou Aqui, que narra a ditadura brasileira a partir da perspectiva da família do ex-deputado Rubens Paiva, foi o grande vencedor do Prêmio Platino, evidenciando a contínua relevância do tema.

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