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Miniaturas de monumentos de Brasília transformam rotina de artesãos

Artesãos transformam monumentos de Brasília em miniaturas e contam histórias de superação

21/04/2026 às 14:57
Por: Redação

Equipado com máscara e óculos de proteção, o artesão Agnaldo Noleto, de 56 anos, começa sua rotina de trabalho antes do nascer do sol, em sua oficina situada na cidade de Santo Antônio do Descoberto, Goiás. Materiais como resina, madeira e tinta são escolhidos criteriosamente para dar vida, em pequenas proporções, aos monumentos localizados a mais de cinquenta quilômetros dali, na capital federal, cidade pela qual desenvolveu forte apreço.

 

Brasília, que nesta terça-feira (21) celebra seus 66 anos de fundação, é o cenário que inspira Agnaldo em todas as etapas do processo criativo, desde o planejamento até o acabamento das miniaturas. Ele acorda diariamente às 3h para iniciar os trabalhos às 4h e produz, semanalmente, pelo menos 850 peças, comercializadas em feiras da capital. Estes itens, adquiridos por turistas e moradores, vão além de simples lembranças: cada um remete a memórias e histórias marcantes do artesão.

 

A principal referência para Agnaldo é a Catedral de Brasília, tanto a original quanto aquela reproduzida em miniatura em sua oficina. Ele recorda que, aos 14 anos, começou a ganhar dinheiro vigiando veículos no estacionamento da igreja, logo após deixar Riachão, Maranhão, em 1980, acompanhado da irmã. Seus pais permaneceram no estado natal.

 

“Minha família sofria na roça. Eu ajudava eles, mas acho que eu sempre quis mesmo era ser artista”.

 

Na infância e adolescência, Agnaldo já criava carrinhos de madeira e peças em argila, mas demoraria alguns anos até tornar-se artesão profissional. Após incentivo de guias turísticos para realizar fotos instantâneas, consolidou sua trajetória no artesanato ao conhecer a pedra-sabão, material posteriormente substituído por resina devido à presença de amianto. Aprendeu a esculpir e a finalizar as peças, sempre perguntando com um sorriso: “uma lembrancinha hoje?”

 

Segundo ele, a primeira miniatura produzida foi uma homenagem à escultura Os Candangos, de oito metros de altura, instalada na Praça dos Três Poderes e criada por Bruno Giorgi em 1959. Nas mãos de Agnaldo, a peça adquire poucos centímetros e simboliza tanto sua história quanto a de outros nordestinos que migraram para Brasília em busca de oportunidades. Outra obra que admira é a Catedral, concebida pelo arquiteto Oscar Niemeyer.

 

“Eles eram artistas. Eu só copio. Mas, mesmo assim, nada é fácil. Todas as peças são complicadas. A Catedral de Brasília é muito difícil. Qualquer pessoa pode fazer, mas nunca na perfeição que se exige”, acredita.

 

O padrão de qualidade exigido por Agnaldo nas miniaturas permitiu que criasse os seis filhos, todos nascidos em Brasília. Sua rotina é intensa: durante a semana, dedica-se à produção das peças e, nos fins de semana, monta sua banca em frente à Catedral, das 8h às 18h, permanecendo no local enquanto houver turistas circulando.

 

Revezamento nas bancas e continuidade do artesanato

 

Nos dias úteis, Agnaldo cede o espaço em frente à Catedral para outra família nordestina. A maranhense Nariane Rocha, de 44 anos, assumiu a gestão da banca após o falecimento do marido, Marcelino, aos 64 anos, em decorrência de câncer no final do ano passado. Ela conta que, após dez anos trabalhando juntos, convidou a nora, Michele Lima, de 42 anos e natural do Rio Grande do Norte, para ajudá-la nas vendas.

 

“Foi muito triste voltar a trabalhar sem ele. Ficamos por 10 anos aqui. Chamei minha nora para me ajudar”.

 

Michele revela que sente segurança e satisfação em morar em Brasília, onde pretende permanecer definitivamente. Ambas residem em Novo Gama, cidade situada a mais de 40 quilômetros da Catedral, e planejam abrir uma loja própria, além de construir uma casa. O sonho inclui também o retorno aos estudos, com interesse em cursar psicologia, já que, segundo Michele, além de comerciantes, gostam de conversar e compreender as pessoas.

 

O cotidiano exige agilidade e logística cuidadosa: a cada chuva, é necessário cobrir os produtos com plástico, bem como transportar todas as peças para o carro ao final do expediente.

 

Diversidade de histórias e vocações nas feiras de Brasília

 

Outros comerciantes também atuam nas imediações da praça da Catedral. Alberto Correia, de 57 anos, originário de Paranã, Tocantins, e atualmente morador da região do Itapoã, Distrito Federal, relembra que começou a confeccionar as miniaturas lapidando as peças no chão, de frente para a igreja. Ao lado de sua banca, Rodrigo Gomes, de 41 anos, natural de Anápolis, Goiás, trocou a atividade de mototaxista pelo artesanato, reproduzindo em miniatura a arquitetura brasiliense. Rodrigo destaca a criatividade como elemento essencial para atrair o olhar dos visitantes e criou a peça chamada “Mapa Candango”, que reúne diferentes monumentos sobre a base do mapa do Brasil.

 

“Tudo aqui tem jeito de arte. A gente tem que ser criativo para chamar atenção. A cidade é um monumento. A gente pede para olhar para as miniaturas”.

 

Na banca vizinha, Tânia Bispo, de 58 anos, nascida em Salvador e moradora do Gama, conta que iniciou sua trajetória comercial vendendo água de coco. Atualmente, o marido se encarrega dessa atividade do outro lado da praça, enquanto ela se dedica à venda das miniaturas. Ambos sustentaram os quatro filhos por meio desse trabalho e, após trinta anos vivendo em Brasília, Tânia afirma sentir-se parte ativa da história da cidade.

 

“Já fui diarista e infeliz. Hoje não me imagino em outro lugar. Sou encantada por essa cidade grande”.

 

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