LogoPorto Velho Notícias

Projeto investiga origem das tartarugas que vivem em Arraial do Cabo

Estudo reúne exames, identificação por fotos e análise de DNA para mapear a origem das tartarugas na reserva do litoral fluminense

21/04/2026 às 15:36
Por: Redação

Em um cenário de mar tranquilo e céu límpido, mergulhadores utilizam um caiaque para acessar as águas da Praia do Pontal, localizada dentro da Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo, situada na Região dos Lagos, no estado do Rio de Janeiro.

 

A cerca de 200 metros da faixa de areia, um dos mergulhadores submerge e, em poucos minutos, retorna à embarcação trazendo uma tartaruga marinha. Logo após, uma segunda tartaruga é capturada sob as mesmas condições.

 

A ação, observada atentamente por pescadores e banhistas, não tem caráter predatório. Trata-se de um procedimento de acompanhamento da condição das tartarugas e integra o Projeto Costão Rochoso, iniciativa da Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, organização não governamental. A proposta do projeto é reunir evidências científicas para proteger e restaurar costões rochosos, que são áreas de transição entre terra firme e oceano.

 

O trabalho ocorre em parceria com a Petrobras e tem como desafio principal identificar a procedência das tartarugas que vivem em Arraial do Cabo, área litorânea conhecida por apresentar a maior concentração de tartarugas-verdes em território de alimentação no país.

 

De acordo com Juliana Fonseca, bióloga e uma das fundadoras do projeto, todas as cinco espécies de tartarugas marinhas existentes no Brasil já foram registradas em Arraial do Cabo.

 

Exames detalhados nas tartarugas

Após a captura, os animais são levados até a areia, onde passam por uma série de procedimentos, incluindo pesagem, aferição de medidas e coleta de tecido, procedimento comparado a uma biópsia, com o objetivo de identificar sua origem.

 

“Apesar de ter muitas tartarugas aqui em Arraial, é a área com maior densidade de tartarugas-verdes do Brasil, a gente não sabe onde elas nasceram. Então é isso que a gente está tentando entender agora.”

 

Segundo Juliana, a identificação da origem dos animais possibilita compreender quais populações dependem desta região e, ao determinar de onde vêm as tartarugas, torna-se possível mapear a ligação entre locais de desova e áreas de alimentação.

 

Ela também explica que esses répteis, cuja expectativa de vida é de aproximadamente 75 anos, costumam permanecer nas águas de Arraial do Cabo por cerca de dez anos, embora algumas fiquem até 25 anos antes de retornar ao local de nascimento para reproduzir.

 

As tartarugas chegam jovens e pequenas à costa fluminense e se desenvolvem ali.

 

“São juvenis, recém-chegadas na costa. Depois que elas nascem, têm uma fase oceânica que dura, pelo menos, cinco anos. Então, com cerca de 25 centímetros, voltam para a costa. Em Arraial do Cabo, elas crescem e se desenvolvem muito bem, ou seja, engordam aqui com a oferta de alimentos.”

 

Monitoramento, identificação e análise genética

As ações do projeto abrangem o monitoramento da saúde de tartarugas-verdes e tartarugas-pente em três praias do município – Praia dos Anjos, Praia Grande e Praia do Pontal – além da Ilha de Cabo Frio, todas dentro da reserva. Diversos aspectos físicos, como casco, nadadeiras, cauda e até unhas, são medidos.

 

“É um monitoramento para entender como a saúde das tartarugas marinhas está.”

 

Os pesquisadores utilizam ainda fotografias e softwares para identificação individual dos animais. A diferenciação é feita pela análise das placas presentes na cabeça das tartarugas, já que formato e tamanho variam em cada exemplar, funcionando como uma espécie de impressão digital.

 

Desde 2018, o projeto já identificou cerca de 500 tartarugas, das quais 80 tiveram amostras de DNA coletadas para traçar sua origem. A análise genética é realizada em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), com previsão de resultados em até seis meses.

 

Convivência com humanos e recomendações para o turismo

Outro aspecto estudado pelo Projeto Costão Rochoso está relacionado à distância de tolerância das tartarugas em relação à aproximação humana — ou seja, o quanto esses animais conseguem suportar a presença de pessoas sem prejuízo à sua saúde.

 

“As tartarugas são muito carismáticas, todo mundo quer observar. Por conta disso, infelizmente, a gente tem muitos relatos de assédio, de captura, de pegar a tartaruga e tirar de dentro da água, isso é um estresse muito grande para esses animais.”

 

Para medir essa distância, os pesquisadores simulam aproximação progressiva, observando a reação das tartarugas e determinando o ponto médio em que elas demonstram incômodo.

 

Com esses dados, será elaborada uma cartilha de orientações para observação turística de tartarugas marinhas, com aplicação não apenas em Arraial do Cabo, mas também em outras regiões do Brasil e em destinos internacionais.

 

Durante o processo de pesagem, medição e coleta de material biológico, é comum que banhistas, inclusive crianças, se aproximem para observar e questionem se os animais estariam doentes. Integrantes do projeto esclarecem à população que o objetivo é a preservação e que todas as ações são não invasivas.

 

Além disso, uma placa instalada próximo ao local dos procedimentos alerta claramente para a proibição de tocar em animais marinhos.

 

Exigências técnicas e autorizações para o trabalho de campo

Isabella Ferreira, bióloga e pesquisadora envolvida no projeto, explica que participar da captura das tartarugas requer formação acadêmica em áreas como veterinária, biologia ou oceanografia.

 

Ela ainda destaca que são necessárias autorizações específicas emitidas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e do Projeto Tamar, referência mundial em conservação marinha desde sua criação em 1980.

 

A pesquisadora relata que todas as etapas do trabalho – captura, marcação, registro fotográfico – são previamente autorizadas e comunicadas aos agentes ambientais locais, garantindo total transparência e adequação às normas.

© Copyright 2025 - Porto Velho Notícias - Todos os direitos reservados