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Uso irregular de canetas emagrecedoras gera alerta da Anvisa e médicos

Agência e conselhos de saúde unem forças contra o comércio ilegal e riscos à saúde, incluindo pancreatite, enquanto especialistas defendem bloqueio da manipulação.

26/04/2026 às 13:40
Por: Redação

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e diversos conselhos de saúde intensificam suas ações para combater o uso indiscriminado e o mercado ilegal de medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras. Embora considerados uma "revolução" no tratamento da obesidade e diabetes, a preocupação com os riscos à saúde, como a pancreatite, e a proliferação de versões irregulares levou a autarquia a discutir novas normas e buscar parcerias para garantir a segurança da população.

 

Atualmente, a diretoria-colegiada da Anvisa está avaliando uma proposta de instrução normativa. O documento aborda procedimentos e requisitos técnicos específicos para os medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP 1, que são popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras.

 

A crescente popularidade desses produtos, que incluem princípios ativos como semaglutida, tirzepatida e liraglutida, impulsionou um cenário de uso sem orientação e a expansão de um mercado ilícito. É fundamental ressaltar que, no Brasil, a aquisição desses fármacos é permitida somente mediante apresentação de receita médica.

 

Diante dos potenciais riscos à saúde pública, a Anvisa implementou uma série de medidas para coibir o comércio ilegal, que abrange, inclusive, versões manipuladas sem a devida autorização. A agência também estabeleceu grupos de trabalho com o objetivo de fortalecer sua atuação no controle sanitário e assegurar a proteção dos pacientes que utilizam esses medicamentos.

 

Recentemente, o Conselho Federal de Medicina (CFM), o Conselho Federal de Odontologia (CFO) e o Conselho Federal de Farmácia (CFF) firmaram, em conjunto com a Anvisa, uma carta de intenção. O documento visa promover o uso racional e seguro das canetas emagrecedoras.

 

O objetivo central dessa iniciativa é prevenir riscos sanitários associados a produtos e práticas irregulares, além de proteger a saúde da população brasileira.

 

A Anvisa e os conselhos propõem uma atuação conjunta baseada em troca de informações, no alinhamento técnico e em ações educativas.

Em declaração à Agência Brasil, Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), considerou que o advento das canetas emagrecedoras para o tratamento da obesidade e do diabetes representa um avanço significativo. Contudo, ele manifestou preocupação com o uso descontrolado desses medicamentos.

 

São medicamentos muito bons, eficazes, potentes, que abriram realmente um grande horizonte para o tratamento, sobretudo para pessoas que vivem com obesidade. São medicamentos que revolucionaram sob essa perspectiva. Tudo o que a gente já teve pra tratar obesidade tinha resultado menos potente, menos eficaz e eu diria até menos seguro.

Dornelas complementou que, para indivíduos que convivem com uma doença crônica, a perspectiva de um tratamento eficaz e de longo prazo proporciona esperança. Ele enfatizou a importância desses medicamentos não apenas para a perda de peso e o controle glicêmico, mas, sobretudo, para a diminuição do risco cardiovascular.

 

O presidente da Sbem também fez referência a um levantamento recente da Anvisa, que apontou uma desproporção entre a importação de insumos farmacêuticos para a manipulação de canetas emagrecedoras e o consumo do mercado nacional. Conforme os dados, somente no segundo semestre de 2025, mais de 100 quilos de insumos foram importados, volume suficiente para a produção de aproximadamente 20 milhões de doses.

 

Além disso, Dornelas mencionou a apreensão de 1,3 milhão de medicamentos que apresentavam algum nível de ilegalidade ou irregularidade, seja no transporte ou no armazenamento.

 

Isso é estarrecedor. É assustador. A Sbem já vem alertando há muito tempo sobre isso. Para que as pessoas não consumam medicamentos de fontes que não são legais, medicamentos que não são registrados. Isso é altamente preocupante. Além disso, ter uma medicação que é aprovada para duas doenças crônicas, diabetes e obesidade, e as pessoas usarem de maneira indiscriminada realmente é condenatório.

 

Medidas contra a manipulação ilegal

 

Dornelas reiterou seu apoio à medida da Anvisa que determinou a retenção das receitas de canetas emagrecedoras por farmácias e drogarias desde junho do ano passado. Ele atribuiu o "consumo desenfreado" ao mercado paralelo.

 

Hoje, diante desse boom, desse exagero que estamos vendo, talvez valesse a pena a Anvisa bloquear por três meses, por seis meses ou até por um ano qualquer manipulação de qualquer uma dessas drogas injetáveis para o tratamento da obesidade.

Ele argumentou que a Anvisa carece de estrutura suficiente para fiscalizar e controlar um volume de 20 milhões de doses. Por isso, defendeu que, em um "ponto crítico como esse", um bloqueio temporário da manipulação seria uma medida adequada até que outras soluções mais viáveis pudessem ser implementadas.

 

 

Mecanismos de ação e riscos à saúde

 

Ao discorrer sobre os benefícios das canetas emagrecedoras para pacientes com obesidade e diabetes, o médico explicou que esses medicamentos atuam por meio de três mecanismos principais: o controle da glicose; o retardo do esvaziamento gástrico, o que prolonga a sensação de saciedade; e a ação no cérebro, diminuindo o apetite.

 

Essa combinação de ações resulta em uma menor ingestão de alimentos e, por meio de processos fisiológicos e interações hormonais, promove uma perda de peso considerável. A semaglutida, por exemplo, alcança uma média de 15% de perda de peso, enquanto a tirzepatida pode levar a uma redução de 22% a 25%. Esses resultados variam de pessoa para pessoa, dependendo da dose, do acompanhamento profissional e da adesão a mudanças no estilo de vida e na alimentação.

 

Dornelas enfatizou que qualquer medicamento pode causar efeitos colaterais e, no caso das canetas emagrecedoras, os mais comuns incluem náuseas, vômitos e outros sintomas gastrointestinais.

 

Com o uso indiscriminado, comprando de fontes não seguras medicamentos não bem armazenados ou transportados, esses riscos aumentam muito.

A Anvisa começou a registrar efeitos colaterais mais graves, como a pancreatite. O médico observou que a pancreatite é uma doença infelizmente frequente no Brasil, com cerca de 40 mil internações anuais, e que usualmente é causada por consumo excessivo de álcool ou pela presença de pedras na vesícula.

 

Esses medicamentos, por si só, quando se faz o retardo do esvaziamento gástrico, eles promovem uma maior parada do líquido que fica dentro da vesícula biliar. E o fato desse líquido, utilizado no processo da digestão, ficar mais tempo parado dentro vesícula pode facilitar a formação de cálculos. Isso poderia aumentar o risco, para algumas pessoas, de pancreatite. Esse é o maior risco hoje.

 

Recomendações para uso seguro

 

O presidente da Sbem detalhou o que os profissionais de saúde consideram os quatro pilares essenciais para a segurança e a responsabilidade no uso desses medicamentos:

 

O primeiro pilar é a utilização de um produto que seja seguro e legal, devidamente registrado no Brasil.

 

O segundo pilar envolve a obtenção de uma prescrição de um médico com registro ativo, que também deve assegurar o acompanhamento adequado do paciente desde o diagnóstico.

 

O terceiro pilar consiste em saber a procedência da venda, priorizando farmácias e drogarias que garantam uma compra segura.

 

O quarto e último pilar é o uso das doses corretas, sempre seguindo a orientação médica, e nunca adquirir medicamentos em mercados paralelos.

 

Dornelas esclareceu que a ocorrência de efeitos colaterais não é universal. As náuseas, por exemplo, podem afetar entre 30% e 40% dos usuários, mas não são uma regra, e cerca de 60% a 70% das pessoas não sentem nenhum sintoma. A ausência de efeitos adversos, segundo ele, não significa que a medicação não esteja agindo.

 

Mas náuseas mais intensas, vômitos e, principalmente, dor abdominal importante que não melhora – a dor é o sinal de alerta. Se há dor importante na parte superior do abdômen, temos que pensar na possibilidade, ainda que rara, de uma pancreatite. A dor é o mais preocupante.

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