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Homens se engajam no combate ao machismo e à violência

Programas socioeducativos, empresas e movimentos sociais impulsionam a participação masculina pela igualdade de gênero e a desconstrução de padrões.

25/04/2026 às 15:32
Por: Redação

Iniciativas como grupos de apoio, cursos e campanhas buscam ativamente engajar o público masculino no combate ao machismo e à violência contra a mulher, visando construir uma sociedade mais igualitária.

 

O psicólogo Flávio Urra, integrante do programa E Agora, José?, enfatiza a urgência de ampliar a participação masculina na discussão sobre o fim da violência contra a mulher. Ele observa que o número de homens atualmente envolvidos nessa causa ainda é bastante reduzido, tornando crucial o aumento do engajamento masculino no enfrentamento à violência.

 

Programa de Responsabilização

A Lei Maria da Penha estabelece a obrigatoriedade de agressores participarem de programas de recuperação e acompanhamento psicossocial. Nesse contexto, o programa E Agora, José? Pelo Fim da Violência contra a Mulher se constitui como um grupo socioeducativo voltado à responsabilização de homens.

 

Urra explica que a maioria dos homens não se percebe como parte do problema do machismo, gerando uma considerável resistência em discutir o tema. Essa relutância se intensifica entre os autores de violência. Segundo ele, nos grupos com esses homens, a resistência é ainda mais acentuada, pois muitos se sentem injustiçados por serem compelidos a participar por decisão judicial.

 

O curso do programa é composto por 20 encontros, cada um com duração de duas horas. Ao término da participação, conforme relatado por Flávio Urra, há uma percepção unânime entre os homens de que houve uma melhora significativa em suas vidas.

 

“Estão melhores pais, estão melhores companheiros, trazem isso no discurso que houve uma mudança ali. Se a gente for pensar que já passaram para nós cerca de 2 mil homens e se a gente conseguir, de alguma forma, afetar a vida desses 2 mil homens e das mulheres que convivem com eles, possivelmente está havendo uma mudança na sociedade.”


 

Engajamento Corporativo

Felipe Requião, consultor de empresas com sete anos de atuação como facilitador em grupos de homens, observou padrões comportamentais frequentes. Entre eles, destacam-se a desresponsabilização individual, manifestada por frases como “eu não faço esse tipo de coisa, não sou eu” e “tem coisa muito pior que acontece”.

 

Requião também aponta a invisibilização do impacto das ações e, em algumas situações, a vitimização ou o desvio do foco como atitudes recorrentes. Ele explica que esses comportamentos derivam de um aprendizado cultural, o que sublinha a relevância das rodas de conversa para impulsionar a mudança.

 

O consultor nota que a relutância masculina em engajar-se em diálogos também se manifesta no ambiente corporativo. Ele descreve uma resistência comum ligada à percepção de perda de espaço. Segundo Requião, os homens expressam preocupações como “Poxa, agora vão tirar espaço dos homens” ou “agora eu não posso mais, não serei considerado para determinadas posições, promoções, etc.”.

 

Requião enfatiza a necessidade do envolvimento das lideranças na promoção de temas como diversidade, equidade, inclusão e pertencimento. Para ele, o processo deve ser uma jornada contínua, ultrapassando a realização de uma única palestra, aula ou roda de conversa. O consultor detalha que o engajamento masculino nas questões do machismo e da violência geralmente se inicia após três ou quatro encontros reflexivos.

 

Estudos indicam que ambientes de trabalho que promovem maior igualdade de gênero entre homens e mulheres registram uma melhoria no clima organizacional, conforme apontado pelo consultor.

 

“Uma mudança real acontece quando a gente, homem, percebe que não está perdendo. Está se libertando de um modelo que nos restringe, que nos limita, que nos cerceia e que a gente pode fazer diferença performando uma masculinidade de um outro lugar.“


 

Carlos Augusto Souza Carvalho, engenheiro de 55 anos, exemplifica uma liderança engajada. Ele compartilhou com os colaboradores de sua empresa de engenharia as reflexões adquiridas em um grupo de homens. Carvalho promove palestras sobre masculinidade para sua equipe, e os resultados dessas reuniões são descritos como impressionantes e enriquecedores, revelando a riqueza de temas que os homens têm a discutir, independentemente de sua classe social, condição financeira, posição no mundo ou orientação sexual.

 

Diálogos Digitais e Comunitários

O psicólogo Alexandre Coimbra Amaral criou um espaço terapêutico online e gratuito, ativo desde 2017, na internet. Ele explica que a evolução positiva tem início quando os homens se dão conta da possibilidade de compartilhar suas angústias ou simplesmente acompanhar diálogos sobre machismo e as diversas formas de masculinidade.

 

Amaral, que é terapeuta familiar, sugere que pais dialoguem sobre o tema com outros pais em grupos de mensagens escolares. O objetivo é a troca de experiências sobre como abordar a questão do problema quando os filhos estão envolvidos.

 

“Construir parâmetros comuns que vão para além da família, escutar a escola, perceber na escola um lugar possível para construir também essas pontes. Então acho que a formação de comunidade, que é uma coisa em baixa no nosso século, é fundamental para a gente produzir discursos que vão além da família. A comunidade é esse meio do caminho entre a família e as políticas públicas e a lei.”


 

Mobilização do Laço Branco

No Brasil, o movimento global Laço Branco instituiu o dia 6 de dezembro como o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres.

 

A campanha Laço Branco desenvolve atividades contínuas ao longo do ano, incluindo o projeto Homens de Honra, que capacita multiplicadores. Patricia Zapponi, fundadora e diretora do Instituto Laço Branco Brasil, afirma que a presença de homens para debater o enfrentamento ao machismo em locais como clubes, escolas e templos promove um impacto significativo.

 

“Quando você leva o homem, seja para um canteiro de obra, seja para uma escola, você muda o olhar. Então é um desafio, porque o homem, na grande maioria [dos casos], ele é o agente da violência, mas ele passa a ser o agente do enfrentamento. Então ele tem mais voz para falar com o próprio ofensor.”


 

Zapponi ressalta o notável engajamento masculino nos projetos, com o número de voluntários homens sendo quase o dobro do de mulheres. Ela acrescenta que todos os voluntários masculinos passam por uma rigorosa verificação de CPF para assegurar que não há histórico de violência.

 

As atividades da campanha Laço Branco são permanentes e incluem ações como o Orange Day, que visam o envolvimento dos homens. Além disso, a iniciativa conta com núcleos integrados de Acolhimento à Mulher, onde advogados oferecem suporte jurídico gratuito a vítimas de violência.

 

Educação e Prevenção

O programa Maria da Penha Vai à Escola, implementado pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) há uma década, atua na prevenção e coibição da violência contra a mulher no ambiente educacional de crianças e jovens.

 

A parceria atual inclui o TJDFT, o Ministério Público do Distrito Federal e a Secretaria de Estado de Educação do DF, entre outras instituições. Mais recentemente, o Maria da Penha Vai à Escola foi incorporado como uma das ações do Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, que abrange os Três Poderes.

 

A psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello afirma que, em diversas regiões do Brasil, já existem práticas eficazes e construtivas que promovem a reflexão sobre o tema.

 

“É importante pensar que já existem boas práticas com uma certa história, com uma boa avaliação em vários estados brasileiros. A gente não precisa inventar a roda, a gente precisa trocar esse conhecimento e afinar cada vez mais essas práticas.”


 

Zanello ressalta a função transformadora da escola na comunidade e propõe outras ações para envolver os pais. Ela sugere que, em reuniões, sejam oferecidas palestras que não só informem, mas também sensibilizem os pais sobre o letramento de gênero. A pesquisadora indica a possibilidade de convidar profissionais de diversas áreas para abordar temas como violência sexual contra crianças e adolescentes, e violência doméstica.

 

Para Peu Fonseca, orientador familiar, a revisão do machismo demanda a participação de homens e mulheres em rodas de conversa plurais. Ele nota, especialmente em comunidades escolares, que os homens frequentemente formam seus próprios grupos de diálogo e discutem entre si.

 

“Falam sobre o seu parentar, sobre o seu papel no cuidar, tudo isso. Só que eles não falam, talvez, como a gente tem a expectativa do que seja esse papel do homem a ser desempenhado. O que eu acho, na verdade, é que a gente precisa convidar os homens e os pais para ambientes integrados, inclusive não apenas entre homens, mas também com mulheres.”


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