LogoPorto Velho Notícias

Filmes de Brasil e Paraguai disputam Prêmio Platino ao abordar democracia

Produções destacam desafios políticos, ditadura, religião e identidade em premiação no México

02/05/2026 às 14:59
Por: Redação

Dois documentários, um brasileiro e outro paraguaio, concorrem ao principal troféu do cinema ibero-americano ao tratarem dos desafios da democracia na América Latina. A 13ª edição do Prêmio Platino terá o vencedor do prêmio de melhor documentário anunciado em cerimônia no México, marcada para o próximo sábado, dia 9.

 

O documentário brasileiro "Apocalipse nos Trópicos", dirigido por Petra Costa, analisa a influência da religião evangélica nas decisões políticas do país. Por sua vez, o longa paraguaio "Sob as bandeiras, o Sol", de Juanjo Pereira, examina o período da ditadura no Paraguai.

 

Petra Costa, indicada ao Emmy Awards por sua direção em documentários, investiga o papel de líderes evangélicos nos rumos do Brasil. O filme acompanha o ciclo de ascensão e queda do governo de Jair Bolsonaro, entre os anos de 2018 e 2022, culminando na tentativa frustrada de golpe ocorrida em janeiro de 2023. Além disso, a produção aborda o avanço da fé evangélica no país.

 

Ditadura no Paraguai é tema de produção premiada

Com imagens raras, o filme paraguaio retrata a ditadura de Alfredo Stroessner, que governou o país de 1954 a 1989. "Sob as bandeiras, o Sol" já recebeu o prêmio do júri no Festival de Cinema de Berlim, em 2025. Para compor o documentário, Juanjo Pereira utilizou cinejornais exibidos em salas de cinema e filmes de propaganda do Estado, uma vez que parte dos acervos audiovisuais paraguaios foi destruída para ocultar crimes cometidos durante o regime.

 

De acordo com a Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai, a ditadura de 35 anos foi a mais duradoura do continente, deixando pelo menos 20 mil vítimas e resultando em 420 mortos ou desaparecidos.

 

O Partido Colorado, que está no poder desde 1947 e foi retirado apenas uma vez, com a eleição do ex-bispo Fernando Lugo em 2008, voltou ao comando após a deposição do presidente em um julgamento político conturbado.

 

O documentário de Pereira apresenta as imagens históricas sem o uso de entrevistas ou narração, e debate o papel dos meios de comunicação na sustentação do regime. Segundo avaliação do professor de História Paulo Renato da Silva, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), considerado um dos principais estudiosos do assunto, o controle dos veículos de imprensa foi determinante para a longevidade da ditadura.

 

“Ter o controle dos meios era decisivo, tanto para fazer a propaganda quanto para evitar as críticas e deixar um legado”, avaliou o professor. “No Paraguai, houve uso de jornais e do rádio para conquistar o apoio e buscar ‘consenso’”, citou o pesquisador.

 

O filme também investiga como essas imagens ajudaram a construir a identidade nacional paraguaia.

 

Alianças políticas e obras binacionais durante o regime

Outro aspecto abordado pelo documentário é a participação do Paraguai na Operação Condor, que envolveu colaboração com outros países, inclusive o Brasil. Essa operação consistiu na articulação de ações de inteligência entre os regimes latino-americanos, com respaldo dos Estados Unidos, para perseguir opositores e realizar troca de prisioneiros, conforme explicou o pesquisador da Unila.

 

Além da cooperação repressiva, Brasil e Paraguai se uniram em grandes projetos, como a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, cujas condições foram consideradas desfavoráveis ao Paraguai. O professor Paulo Renato destaca que essa parceria também contribuiu para projetar ao exterior uma imagem ilusória de desenvolvimento e progresso do país vizinho.

 

O documentário ainda aborda a ascendência alemã de Stroessner e seus vínculos com criminosos nazistas, entre eles o médico Josef Mengele.

 

Outros indicados ao prêmio principal

Além dos documentários brasileiros e paraguaio, a competição ibero-americana conta com "Tardes de Solidão", dirigido pelo catalão Albert Serra, uma coprodução entre Espanha e Portugal que acumula prêmios, incluindo o Goya, evento de destaque do cinema espanhol, e "Flores para Antônio", de Elena Molina e Isaki Lacuesta.

 

"Tardes de Solidão" acompanha a trajetória do toureiro peruano Andrés Roca Rey, retratando de forma realista o universo das touradas, com imagens intensas de sangue, embates e conquistas. O longa foi elogiado pela crítica, embora tenha causado desconforto inclusive ao próprio protagonista e gerado debates com ambientalistas.

 

Por sua vez, "Flores para Antônio" narra a busca de uma filha por compreender a vida do pai, o cantor e compositor Antonio Flores, falecido quando ela tinha apenas oito anos. A protagonista da investigação é Alba Flores, renomada atriz espanhola conhecida no Brasil por sua participação na série de televisão "Casa de Papel" (2017), que lidera um mergulho pessoal em sua própria história de família.

 

Todos os documentários mencionados concorrem ao prêmio de melhor documentário da 13ª edição do Prêmio Platino, consolidando a premiação como palco das questões sociais, políticas e culturais que marcam o cinema ibero-americano.

© Copyright 2025 - Porto Velho Notícias - Todos os direitos reservados