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Peru: Votação Acirrada por 2º Turno Mantém Cenário de Instabilidade

Após cinco dias de apuração, disputa pelo segundo lugar segue apertada, com Keiko Fujimori já garantida e parlamentares alertando para desafios de governabilidade.

17/04/2026 às 23:25
Por: Redação

A eleição presidencial do Peru permanece em aberto, mesmo após cinco dias de apuração dos votos. O pleito, realizado no último domingo (17), contou com 35 candidatos ao cargo máximo do país, que busca seu nono presidente em uma década, período marcado por intensa turbulência política.

 

A candidata de direita, Keiko Fujimori, obteve 17% dos votos e já assegurou matematicamente sua vaga no segundo turno, previsto para 7 de junho. Contudo, a definição de seu adversário segue incerta, com uma diferença inferior a 3 mil votos separando o segundo e o terceiro colocados na corrida presidencial.

 

Roberto Sanchéz Palomino, representante da esquerda e aliado do ex-presidente Pedro Castillo, acumula 12% dos votos. Logo atrás, com 11,9% dos votos válidos, está o ultraconservador Rafael Aliaga, que é apontado como admirador do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

 

Até a tarde de sexta-feira, 93,3% das urnas haviam sido contabilizadas em todo o Peru. O país, o quarto mais populoso da América do Sul com aproximadamente 34 milhões de habitantes, compartilha uma fronteira de 2,9 mil quilômetros com o Brasil, sendo a segunda maior após a divisa com a Bolívia.

 

O professor Gustavo Menon, especialista em Integração da América Latina na Universidade de São Paulo (USP), analisa que o resultado desta eleição pode influenciar a dinâmica comercial entre China e Estados Unidos na região.

 

Roberto Sánchez se opõem vertiginosamente à plataforma encampada por Keiko Fujimori, que pretende se realinhar com os EUA. Ela já fez acenos a Donald Trump no sentido de recrudescer a política migratória e estancar a influência chinesa que se dá, sobretudo, via Porto de Chancay.

 

O Legado de Fujimori na Disputa

 

Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o Peru entre 1990 e 2000, lidera a apuração com 2,6 milhões de votos, considerando um universo de 27 milhões de eleitores. Esta é a quarta vez que Keiko disputa a presidência, tendo sido derrotada no segundo turno nas três eleições anteriores, em 2011, 2016 e 2021.

 

As constantes derrotas de Keiko são interpretadas como um indicativo de que ela enfrenta um limite no número de votos, devido à resistência pública à herança política de seu pai, que foi condenado por violações de direitos humanos.

 

O antropólogo Salvador Schavelzon, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em política latino-americana, ressalta a associação de Keiko com o passado de seu pai.

 

Fujimori lembra no Peru da guerra contra o Sendero Luminoso, a reedição desse discurso antiterrorista, mas que, nas províncias, é associado às elites, ao neoliberalismo.

 

A Ascensão da Esquerda com Sánchez

 

O candidato Roberto Sánchez contabiliza, até o momento, 1,890 milhão de votos. Ele é uma figura próxima do ex-presidente Pedro Castillo, que foi deposto e preso sob acusação de tentativa de golpe de Estado por tentar dissolver o parlamento. Seus apoiadores argumentam que Castillo foi uma vítima do influente parlamento peruano, por representar os interesses da população rural.

 

Schavelzon descreve o perfil de Sánchez como nacionalista-popular.

 

É um nacionalismo popular que reivindica a cor da pele, o chapéu, que são símbolos importantes de um setor político que vem chegando aos poucos, mas com muita resistência por parte das elites. Ele busca dar uma resposta às maiorias que trabalham na terra, do interior, e tem prometido algumas reformas.

 

Entre as propostas de governo de Sánchez, destacam-se a nacionalização de recursos naturais, a criação de uma nova constituinte para reformular os poderes institucionais do Peru e a ampliação dos direitos trabalhistas.

 

Psicólogo de formação, Sánchez atuou como ministro do Comércio Exterior e Turismo no governo de Pedro Castillo em 2021. Ele é deputado pelo partido Juntos Pelo Peru e foi um dos entusiastas do Porto de Chancay, um projeto com significativos investimentos chineses visando facilitar o escoamento da produção para a Ásia.

 

Apesar de sua conexão com a população do campo, Schavelzon alerta que Sánchez também é um político oriundo do sistema partidário do Congresso peruano.

 

Sanchéz vem dos jogos partidários, da velha política do Congresso, que acena para o povo, mas muitas vezes acaba sendo mais próximo das elites, talvez novas elites que se reposicionam. A gente viu isso em vários lugares da América Latina.

 

O Ultraconservadorismo de Aliaga

 

Roberto Sánchez disputa a segunda vaga no segundo turno com Rafael López Aliaga, que se autodenomina ultraconservador e é classificado pelo professor Menon como representante da extrema-direita.

 

Schavelzon, também professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), complementa que, caso o segundo turno seja entre Keiko Fujimori e Rafael Aliaga, "o campo da extrema-direita será fortalecido", resultando em um "realinhamento em direção à Casa Branca, apesar da interdependência comercial entre Peru e China".

 

Aliaga, ex-prefeito da capital Lima, é frequentemente comparado a figuras como Donald Trump e o presidente argentino Javier Milei, devido à sua combinação de um discurso ultraconservador com a defesa enfática do livre mercado.

 

O ultraconservador do partido Revolução Popular tem 1,877 milhão de votos. Ele inicialmente figurava em segundo lugar na apuração, mas foi superado por Sánchez quando os votos das áreas rurais começaram a ser computados.

 

Diante da mudança no cenário, Aliaga passou a denunciar uma suposta fraude eleitoral, porém sem apresentar provas. Essa acusação foi rechaçada por seu oponente.

 

Em nota, o partido de Sánchez, Juntos Pelo Peru, "fez um chamado firme ao nosso povo para manter a calma, a vigilância democrática e a confiança nos canais institucionais, esperando com responsabilidade os resultados oficiais".

 

Um comunicado preliminar da Missão da União Europeia, responsável por fiscalizar as eleições peruanas, não apontou indícios de fraude, apesar de ter registrado atrasos em 13 locais de votação em Lima, o que impactou o voto de 55 mil pessoas.

 

Desafios da Governabilidade no Peru

 

Com nove presidentes em dez anos, o Peru vivencia um histórico de renúncias e destituições. O professor Gustavo Menon avalia que, independentemente do vencedor, a governabilidade não estará garantida.

 

Independentemente quem seja o novo presidente eleito, a vida com o parlamento peruano não será fácil frente a essa pulverização dos partidos e do sistema eleitoral. Para formar uma base de governo, o presidente eleito terá que fazer uma série de concessões.

 

Menon enfatiza que, apesar de o Peru adotar um regime presidencialista, "é o parlamento, em grande medida, quem toca as agendas de governo".

 

A crise política recente do país teve um de seus ápices em 2021, quando Pedro Castillo, um professor rural de centro-esquerda, venceu Keiko Fujimori no segundo turno. Sua eleição foi considerada uma surpresa, pois Castillo não estava entre os favoritos nas pesquisas da época.

 

No entanto, Castillo foi afastado e detido após tentar dissolver o Parlamento, sendo condenado em novembro de 2025 a mais de 11 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Para seus apoiadores, ele foi uma vítima de um golpe parlamentar.

 

A então vice, Dina Boluarte, assumiu a presidência e reprimiu violentamente as manifestações contrárias à destituição de Castillo, resultando em 49 mortes, conforme levantamento da Anistia Internacional.

 

Com uma aprovação popular extremamente baixa, Boluarte foi destituída pelo Congresso em 10 de outubro de 2025. Em seu lugar, assumiu José Jerí, presidente do Parlamento do Peru, cuja gestão foi igualmente breve. Em 17 de fevereiro do mesmo ano, o Congresso destituiu Jerí, e José María Balcázar Zelada foi eleito interinamente por meio de votação indireta do poderoso Parlamento peruano, considerado o poder de fato na nação andina.

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