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Pesquisa associa infecção por dengue a aumento do risco de Guillain-Barré

Estudo mostra que pacientes com dengue têm risco até 30 vezes maior de desenvolver síndrome neurológica rara

17/04/2026 às 00:28
Por: Redação

Pessoas diagnosticadas com o vírus da dengue apresentam probabilidade 17 vezes maior de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas seis semanas que se seguem à infecção. O risco atinge um patamar ainda mais elevado, chegando a ser 30 vezes superior, nas duas primeiras semanas subsequentes ao surgimento dos sintomas relacionados à dengue.

 

Essas informações foram obtidas a partir de um estudo realizado por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz Bahia (Fiocruz) em colaboração com a Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. Os resultados foram publicados em revista científica internacional, trazendo dados detalhados sobre a ligação entre a dengue e a SGB.

 

De acordo com o levantamento, a cada 1 milhão de episódios de dengue registrados, 36 pessoas podem vir a apresentar a Síndrome de Guillain-Barré. Embora o valor absoluto seja considerado pequeno, os autores ressaltam sua relevância diante do contexto de epidemias recorrentes, como ocorre frequentemente no Brasil.

 

A Síndrome de Guillain-Barré é considerada uma complicação rara, com potencial gravidade, afetando o sistema neurológico.

 

O estudo aponta que a disseminação da dengue superou a de outras doenças transmitidas por mosquitos no mundo, totalizando 14 milhões de casos globalmente apenas no ano de 2024.

 

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores da Fiocruz Bahia analisaram três grandes bancos de dados do Sistema Único de Saúde (SUS): registros de internações hospitalares, notificações de casos confirmados de dengue e informações sobre óbitos.

 

Durante o período de 2023 a 2024, mais de 5 mil hospitalizações por SGB foram identificadas, sendo que em 89 dessas situações a síndrome foi registrada logo após o paciente manifestar sintomas de dengue.

 

Os especialistas afirmam ser fundamental que os órgãos de saúde pública incorporem a SGB como uma possível complicação pós-dengue nos protocolos de vigilância.

 

“Durante surtos de dengue, sistemas de saúde devem ser preparados para identificar precocemente casos de fraqueza muscular e dispor de leitos de UTI e suporte ventilatório. Estratégias de vigilância ativa de SGB devem ser acionadas nas semanas seguintes ao pico de casos de dengue”, alertam os pesquisadores.


 

Segundo informações da Fiocruz, o levantamento contribui para que médicos, enfermeiros e neurologistas possam suspeitar de SGB em pacientes que tenham apresentado dengue nas últimas seis semanas e passem a manifestar fraqueza nas pernas ou sensação de formigamento.

 

Os autores do estudo enfatizam a importância do diagnóstico precoce, pois os tratamentos, como imunoglobulina ou plasmaférese, são mais eficazes quando iniciados rapidamente.

 

“Também é importante incentivar a notificação dos casos de SGB pós-dengue ou informar a vigilância epidemiológica municipal/estadual sobre a ocorrência de doença neuro-invasiva por arbovírus”, defendem.


 

De acordo com a Fiocruz, atualmente não existe um tratamento antiviral específico direcionado à dengue, sendo o manejo dos casos baseado em medidas de hidratação e suporte clínico ao paciente. Por essa razão, a instituição destaca a importância da prevenção, com enfoque no controle do mosquito Aedes aegypti e na vacinação como medidas mais eficazes para conter a doença.

 

A vacinação contra a dengue é apontada como capaz de reduzir consideravelmente tanto o número de casos quanto o total absoluto de complicações graves, incluindo a SGB.

 

“Enquanto não tivermos um tratamento antiviral eficaz contra a dengue, a prevenção continua sendo a melhor estratégia. Nosso estudo reforça que evitar a infecção evita também complicações como esse tipo de paralisia potencialmente grave”, afirmam os autores.


 

Crescimento de casos e desafios para o sistema de saúde

 

Conforme avaliação da Fiocruz, o Brasil enfrenta epidemias frequentes de dengue, tendo ultrapassado 6 milhões de casos prováveis em 2024. Essa realidade indica que, apesar de rara, a complicação representada pela SGB pode atingir um número absoluto significativo de pessoas, exigindo preparação adicional dos serviços de saúde.

 

O estudo também ressalta que outras doenças arbovirais, transmitidas por mosquitos, já haviam demonstrado ligação com complicações neurológicas, como ocorreu durante a epidemia de Zika nos anos de 2015 e 2016. Naquele período, o vírus Zika foi relacionado tanto ao aumento de casos de microcefalia em recém-nascidos quanto ao crescimento expressivo de registros de SGB em adultos. A dengue faz parte do mesmo grupo do Zika, sendo ambas arboviroses.

 

Características da Síndrome de Guillain-Barré

 

A Síndrome de Guillain-Barré caracteriza-se por ser uma condição neurológica rara em que o sistema imunológico do paciente ataca os nervos periféricos, responsáveis por conectar o cérebro e a medula espinhal ao restante do organismo.

 

Os sintomas incluem fraqueza muscular que, normalmente, tem início nos membros inferiores e pode progredir para os braços, rosto e, em quadros mais graves, afetar a capacidade respiratória. Nesses casos, a paralisia pode ser total, exigindo o uso de equipamentos para manutenção da respiração.

 

A maior parte das pessoas acometidas consegue se recuperar da síndrome, mas o processo pode demandar meses ou até anos. Algumas apresentam sequelas permanentes após o episódio.

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