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Pesquisa de 22 anos aponta resiliência da Amazônia contra savanização

Análise realizada em área de intenso desmatamento mostra capacidade de recuperação da floresta

28/04/2026 às 19:54
Por: Redação

Uma investigação científica conduzida em Querência, região do Mato Grosso com altos índices de desmatamento nas últimas décadas, examinou por 22 anos os efeitos de secas e queimadas na floresta amazônica em áreas de pressão agrícola intensiva.

 

Os pesquisadores descartaram, ao final desse período, a tese amplamente debatida desde os anos 1990 de que a floresta amazônica poderia ser substituída por vegetação típica de savana, como gramíneas e arbustos. Durante o monitoramento, foi observada a recuperação das áreas atingidas por fogo e seca pelas próprias espécies nativas da floresta.

 

De acordo com Leandro Maracahipes, pesquisador vinculado à Universidade de Yale e apoiado pelo Instituto Serrapilheira, as evidências obtidas ao longo do estudo indicam que o ecossistema amazônico é altamente resiliente e capaz de retomar espaços degradados, desde que determinadas condições sejam respeitadas.

 

Entre os fatores essenciais para permitir a regeneração da floresta está a interrupção dos incêndios, assim como a manutenção de áreas de mata preservada no entorno.

 

“É preciso que você tenha uma fonte de dispersão próxima pra poder recuperar essa área. Porque tem que ter uma matriz de vegetação nativa próxima, animais para poder dispersar essas sementes com o vento. Se não tiver, vai ser mais difícil e mais lento”, diz Macahipes.


 

A pesquisa iniciou-se em 2004, abrangendo uma área de 150 hectares em que se realizou o levantamento de toda a vegetação, fauna e insetos originalmente presentes. O local foi dividido em três setores de 50 hectares cada: dois deles sofreram queimadas controladas, sendo um queimado a cada três anos e outro queimado anualmente até 2010, enquanto o terceiro permaneceu sem incidência de fogo durante o período do estudo.

 

Redução da biodiversidade após distúrbios

 

Logo após os incêndios, foi verificada uma queda significativa na diversidade de espécies. Nas áreas queimadas todos os anos, a redução foi de 20,3% no número de espécies, e na fração submetida ao fogo a cada três anos, a perda atingiu 46,2%. Em 2012, uma tempestade de vento provocou a morte de 5% das árvores remanescentes.

 

Os cientistas notaram que, após esses distúrbios, o ambiente foi drasticamente modificado, com a cobertura das copas das árvores (docel) se abrindo e surgimento de maior quantidade de gramíneas próximas às bordas da floresta. Com o tempo, porém, o docel voltou a se fechar e, atualmente, a presença de gramíneas reduz-se a 10% da área, indicando que o interior da floresta recuperou-se mais rapidamente do que as áreas periféricas, e a variedade de espécies está sendo restabelecida.

 

Apesar dessas evidências de recuperação, a floresta regenerada ainda apresenta uma quantidade menor de espécies: a margem inferior varia de 31,3% a 50,8%, dependendo do grau de impacto sofrido.

 

Novas condições e desafios ambientais

 

Segundo Maracahipes, embora a floresta retorne, ela retorna sob novas condições, não reproduzindo de imediato todos os serviços ecológicos que oferecia originalmente. Ele ressalta que as espécies predominantes na nova composição possuem casca fina e madeira de baixa densidade, tornando-as mais suscetíveis à mortalidade.

 

Além disso, a regeneração da floresta enfrenta desafios adicionais, como a intensificação das secas resultantes das mudanças climáticas e a vulnerabilidade a novas ações humanas, especialmente queimadas.

 

Os cientistas também observaram que, mesmo em processo de regeneração, as espécies mantêm a capacidade de se hidratar, mas alertam para a necessidade de recuperar áreas degradadas para garantir o acesso contínuo à água.

 

“Essa região que era conhecida como Arco do Desmatamento, agora tem sido chamada de Arco da Restauração, que é essa possibilidade de restaurar aproveitando a capacidade da floresta de se recuperar”, conclui.


 

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